26 de abril de 2013

Os 83 anos da Imigração Japonesa na Amazônia


Em setembro de 2009, uma grande programação com festas, homenagens e apresentações culturais no Pará e no Amazonas marcou as comemorações do 80º Aniversário da Imigração Japonesa na Amazônia. Nesse período, tive a oportunidade de fazer uma matéria sobre o assunto, e é óbvio que pra mim foi um prazer, por ser nissei e por ser fã da cultura japonesa e também da nipo-brasileira – essa mistura louca que sempre fez parte da minha vida. Meu pai foi um desses imigrantes a abraçar a Amazônia como seu novo lar, especificamente a cidade de Monte Alegre. Trabalhou no cultivo da pimenta-do-reino, casou com uma brasileira e aqui criou raízes - das quais eu sou prova viva.  

Resolvi atualizar a matéria, cortar algumas coisas e republicá-la aqui no blog. O texto foi carinhosamente editado por um dos amigos que trabalhavam comigo na época, Isaac Lôbo, Evandro Santos ou Luiz Carlos Santos (não tenho certeza).

Grupo de dança japonês Manjushaka, em apresentação especial pelos 80 anos de
imigração japonesa na Amazônia - Festival Amazônia Matsuri 2009 - Belém.

A imigração japonesa no Pará: da agricultura à integração cultural

O ano era 1929 quando os primeiros japoneses chegaram ao município paraense de Acará, após uma longa negociação entre a Companhia de Imigração e o Comércio Oriental com o governo do Pará, atraídos pela necessidade de mão-de-obra para a agricultura em terras amazônicas. Com 189 pessoas a bordo, o navio Montevidéu Maru deixou, em 24 de julho daquele ano, a cidade de Kobe, chegando ao porto do Rio de Janeiro em 7 de setembro. De lá, os passageiros embarcaram no Manila Maru até Belém, onde chegaram em 16 de setembro, seguindo para a colônia de Acará. Desde esse trajeto até os dias atuais já são 83 anos de convivência entre brasileiros e japoneses, tendo como resultado a criação de laços definitivos entre o povo japonês e a Amazônia.

No Pará, a comunidade nikkei - termo que faz referência a japoneses e descendentes que vivem no exterior - é estimada em 13 mil pessoas. A maior parte vive em Belém, mas o município de Tomé-Açu, a 200 km da capital, concentra uma das maiores e mais tradicionais colônias japonesas do país. No local, as cerca de 300 famílias residentes mantêm os costumes de seus pais e avós imigrantes, como a prática do sumô, uma das atrações da cidade. Outros municípios paraenses que reúnem comunidades nipônicas, porém menores, são Castanhal, Santa Izabel do Pará, Capanema, Santarém, Monte Alegre e a própria cidade de Acará.

Desenvolvimento - Os japoneses que fincaram raízes no Pará foram fundamentais para o desenvolvimento econômico local. A principal contribuição foi na agricultura, com o cultivo da pimenta-do-reino e da juta, e, mais recentemente, de frutas regionais. A lavoura de pimenta-do-reino alcançou seu auge nos anos de 1960, quando respondia por mais de 35% do valor das exportações paraenses, totalizando 5 mil toneladas do produto.

Já no início de 1970, a disseminação da doença fusariose arrasou os pimentais de Tomé-Açu, até então o principal produtor e exportador de pimenta-do-reino do Brasil. A desvalorização da pimenta e da juta levou à diversificação da produção. Os agricultores passaram a investir, principalmente, na fruticultura. "Hoje, existe uma agroindústria em Tomé-Açu, criada por japoneses e de grande destaque, a Camta (Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu), cujas polpas de fruta são vendidas em supermercados de todo o país", informa Flávio Ikeda, técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater).

O município de Tomé-Açu também é sinônimo de agricultura sustentável. A implantação dos sistemas agroflorestais (SAFs), que combinam o plantio de espécies frutíferas e florestais, recupera parte das áreas degradadas, proporcionando maior biodiversidade e uma produção ambientalmente correta. Tudo isso com a colaboração dos agricultores nikkeis.

Mas não foi somente a economia rural que cresceu. O comércio paraense também ganhou com a cooperação dos japoneses, como frisou o ex-presidente da Associação Comercial do Pará, Altair Vieira. "Foi uma grande colaboração para o desenvolvimento do Estado, pela experiência trazida por esse povo. A integração dos japoneses na comunidade foi de grande valia. Eles não só impulsionaram a agricultura, como também o próprio comércio. Hoje, temos grandes lojas de destaque nacional", disse ele, citando a rede de supermercados Y. Yamada, 15ª no ranking da Associação Brasileira de Supermercados.

A trajetória da família Yamada no Pará começou em 1928, quando Yoshio Yamada, pequeno comerciante de frutas e legumes de Numazu - cidade da província de Shizuoca -, decidiu vir para o Brasil com a esposa Aki e o filho mais velho, Junichiro (atual presidente do grupo). Das plantações de arroz, milho e mandioca em terras do município de Ourém, Yoshio partiu para a capital, onde acabou fundando a empresa em 12 de maio de 1950. Em 2009, já era o maior contribuinte de impostos no setor de varejo do Pará.

Formação étnica - Para o pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) e ex-secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do Pará, Maurílio Monteiro, a contribuição dos imigrantes e seus descendentes está em toda parte. Segundo ele, a imigração japonesa faz parte da formação étnica, social e cultural do povo brasileiro, em especial do Pará, pela quantidade de descendentes e importância histórica. "Em nosso Estado, essa importância e presença podem ser verificadas em diversas áreas, como na economia - agricultura, comércio, fábricas -, na pesquisa - há centenas de pesquisadores com sobrenomes japoneses - e na área de prestação de serviços e de profissionais liberais. Na medicina, por exemplo, é expressiva a presença nipônica, entre outros segmentos", diz ele. 

Ricardo Dohara, engenheiro agrônomo da Emater, concorda: "A colônia japonesa continua contribuindo. Hoje, os filhos e netos dos primeiros imigrantes não trabalham apenas na terra. Estão totalmente integrados à região".

Cultura - No âmbito cultural, eventos como a Semana do Japão, promovidos pela Associação Pan Amazônia Nipo-Brasileira, já integram a agenda de quem vive em Belém. E os quadrinhos e desenhos animados japoneses, conhecidos como mangás e animes, caíram no gosto dos jovens paraenses. Sem falar na adesão de esportes como o beisebol e o golfe em alguns municípios, e na prática de artes marciais, como caratê e jiu-jitsu. Da mesma forma, os japoneses assimilaram conhecimentos e costumes amazônicos, em um rico intercâmbio que modificou e uniu as duas histórias.

5 comentários:

  1. Belo texto, bastante conciso. Vou compartilhar também.

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  2. Olá Jussara Kishi, sou estudante de jornalismo e estou desenvolvendo um TCC sobre a imigração japonesa no Pará. Eu gostaria muito de entrar em contanto com você. Vou deixar o meu e-mail jd.sunymar@gmail.com

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  3. Jussara, gostei logo de cara do seu blogue. Eu sei que há muitos japoneses aqui em Santarém mas gostaria de saber se existe um lugar onde eles se reúnem e talvez ensinam seus costumes para não-descendentes.
    Beijos. Quero muito aprender japônes, porém aqui em Santarém não encontrei nenhum curso.

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    1. Oi Brenna! Tudo bem? Que bom ler o seu comentário :) Morei em Santarém por mais de 2 anos e, infelizmente, passei pelo mesmo que você. Não encontrei curso de japonês e, até onde eu sei, a comunidade nikkei não se mobiliza muito para fazer eventos na cidade. Porém eu soube, na época, que algumas pessoas em Santarém davam aula particular. Se você puder, pode perguntar por aí e tentar descobrir quem são essas pessoas. Já estudei japonês e acho uma língua fantástica! Grande beijo e boa sorte.

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